Quisera eu afastar-me da caverna
Ver tudo ao contrário, mundo de cabeça pra baixo
De verde e laranja tingir uma tela
Quisera eu não ser inseto
Daqueles com dias contados, caminhos programados
Que sempre acabam sob um grande chinelo
Quisera eu trair meu próprio querer
Falso, infame, pseudo-cético
Refutar todo o resto e somente ser
Ah, querer!
Foi tanto que já quis
Tanto que não fiz
E eu sairia saltitando pela rua
vestida na camisola da minha avó
Quem sabe semi-nua, pano na cintura e só
Pra escancarar as cicatrizes
As marcas que o meu querer me deixou
E faria da vida um verdadeiro espetáculo
mendigos poetas, música e palhaço
atores loucos e senhoras dançarinas
Meninos e meninas numa só rima
E tudo, tudo num mesmo compasso
Mas eu não quis
E de tanto que quis e não fiz
Resisto apenas querendo querer
Ao Som de: Catedral - Cotidiano
"O meu desejo e intenso de demais para falar. Mas hoje eu grito
que o que eu acredito eu vou levar."
Hoje acordei diferente
Diferente, não como as pessoas comuns
Cansadas, estressadas, azarentas, indispostas...
Foi pior
Levantei e fui direto ao banheiro, como sempre
Fiz xixi, tomei banho, pensei na vida...
Quando olhei no espelho, algo inexplicável:
O meu nariz havia sumido
Como assim? Como vou viver sem meu nariz?
“Devo estar vendo coisas por causa do cansaço”, pensei
Saí do banheiro e fui comer alguma coisa
Minha mãe já estava acordada na cozinha
Olhou pra mim e não percebeu nada, nenhum comentário
Ufa! Que alívio!
Lá vou eu pra faculdade, na certeza de já estar consciente
Então, uma nova esquisitice: minha vizinha na janela estava careca
Esfreguei as vistas e olhei novamente...
Totalmente calva
Ainda mais perplexa, decidi andar sem olhar pros lados até chegar ao ponto
Tomei o buzão, cheio pra variar, e foi aí que eu fiquei maluca de vez:
Parecia que todos vinham de uma guerra
Havia mutantes e mutilados
Gente com quatro pernas, jovens de duas patas
Homens com seios e mulheres de bigode
Cegos, mancos, loucos, surdos e alejados...
Todos eles
E riam uns dos outros, com comentários pretensiosos
Pobres linguarudos
Só eu consultei o espelho esta manhã?
Queria, como eles, gritar
Dizer qualquer coisa, parar e descer
Até tentei, mas as palavras não saíam, eu também estava muda
Aaaaaaaaaahhhhhhhh!
[Triiiiiiiiiim! Triiiiiiimm!]
Finalmente, consegui ouvir minha própria voz...
Despertador... atrasada... faculdade... sonho...
Acordei de um verdadeiro pesadelo
Corri para a janela, respirei fundo e abri a cortina
Advinha?
estavam todos lá, mutantes e mutilados...
E o meu nariz, onde está?
[Sem trilha sonora dessa vez...]
Daqui de longe eu acompanho a alvorada.
Tingindo o céu de um degradê único, ela avisa que um novo dia começa
E eu me lembro do sol que se pôs, do tempo que se foi.
Sinto falta das travessuras e papos,
dos choros, sorrisos e abraços
Daquela imagem que ajudamos a compor.
Pena que o sol não pode mudar de curso, voltar no tempo e parar naquele exato momento em que ele brilhava forte no meio do céu.
Aquela imagem (a nossa) nunca mais será a mesma,
Mas o sol está lá, incansável, todos os dias nos oferecendo um pedacinho do que foi ontem.
Ao fim de cada ciclo ele traz de volta as palhaçadas, as criancices, as fofocas,
os clicks e o brigadeiro de panela...
Basta que tenhamos cada detalhe guardado na memória e que nunca esqueçamos de olhar para ele.
Agradecimento especial aos cachinhos dourados que me fizeram voltar aos meus rabiscos depois de tanto tempo... thank's Ventura! >> www.tantabirra.blogspot.com
